O Fair Play Financeiro: a chatice dos ricos e a utopia dos pobres

Num mundo cada vez mais capitalista, obscuro e onde tudo gira em torno do negócio, a UEFA criou o Fair Play Financeiro. A intenção é cla...

Num mundo cada vez mais capitalista, obscuro e onde tudo gira em torno do negócio, a UEFA criou o Fair Play Financeiro. A intenção é clara: corrigir eventuais excessos e consequentes desigualdades. Olhar para o futuro. A medida, mais do que preventiva, tem o intuito de corrigir um futebol desigual, cada vez mais dividido entre os ricos e os pobres, evitando-se assim uma condição sine qua non entre o rico-vencedor e o pobre-perdedor.  Talvez vá ainda mais longe e procure evitar que a bolha rebente (como quem diz, o colapso). Foi em 2011 que o mundo do futebol europeu conheceu este projecto. Os clubes, para poderem participar nas principais provas europeias, teriam de apresentar folhas limpas, isentas de dívidas a jogadores, clubes e entidades fiscais e tributárias. Nascia uma nova visão, preocupada com um futebol cada vez mais sem limites. Posteriormente, em 2013, os clubes vincular-se-iam a uma gestão moderada, sem incremento de dívida e uma forte contenção nos custos, privilegiando sim os seus lucros. Resumidamente, o modelo "break-even". Ninguém podia gastar mais do que aquilo que tinha ou podia. Uma ideia banal para o comum mortal, mas impensável no campo desportivo, onde tantos interesses vão a jogo. Mais do que o jogo, a contabilidade, as finanças e a gestão.


Alguns factos demonstrativos do rumo negativo do futebol e que levaram à intervenção da UEFA:

Segundo a Deloitte: "entre os 20 clubes da "Liga do Dinheiro" - nome atribuído ao estudo da Consultora em apreço - todos participantes em campeonatos europeus, mais de um terço têm agora dono de uma entidade de controlo fora da Europa"

No Futebol Português: O Sport Lisboa e Benfica terminou a época desportiva passada com um passivo consolidado de 449 milhões de euros (uma dívida que, no caso do Benfica, inclui a Benfica Stadium), o FC Porto com 233,5 milhões de euros e o Sporting Clube de Portugal tinha um passivo total de 264,8 milhões de euros, isto a 30 de junho de 2014




Um dos relatórios prévios à elaboração das medidas, demonstra que 56% dos clubes europeus são deficitários e que os principais clubes de 53 países têm despesas superiores às receitas.

Anzhi, Málaga, Queens Park Rangers, Portsmouth são exemplos de clubes que investiram forte, em tempos diferentes, e passaram por graves problemas financeiros - uns mais do que outros - levando a que tenham perdido estatuto e projecção desportiva. Muitos deles passam mesmo dificuldades para se manterem na alta competição. O Mónaco, de Leonardo Jardim, começou numa política de mercado agressiva e serenou os seus ânimos recentemente. Talvez por culpa da UEFA...

Em 2014/2015 os clubes passaram a ser sancionados por desconformidades face às medidas implementadas. O Comité de Controlo Financeiro de Clubes da UEFA passaria a ter por função a aplicação material das medidas implementadas, assim como a fiscalização do cumprimento das mesmas por parte dos clubes participantes. No final desse ano, abrem-se portas a clubes não inseridos nas provas europeias, mas igualmente interessados na sua saúde económico-financeira como requisito de uma entrada futura. O pensamento Uefeiro tem presente a consciência de que o mal estava feito, e a dívida, uma vez real e avultada, não desaparece num estalar de dedos. A cura reside num processo gradual, digno de acompanhamento e correcção.

Os objectivos do Fair Play financeiro, delineados em 2009, pelo Comité:
 introduzir mais disciplina e racionalidade nas finanças dos clubes de futebol
• diminuir a pressão sobre salários e verbas de transferências e limitar o efeito inflacionário
• encorajar os clubes a competir apenas com valores das suas receitas
• encorajar investimentos a longo prazo no futebol juvenil e em infra-estruturas
• proteger a viabilidade a longo prazo do futebol europeu
• assegurar que os clubes resolvem os seus problemas financeiros a tempo e horas.

Apesar de a UEFA permitir um desvio orçamental, dentro de valores estritamente assumidos (entre eles o pagamento da dívida por parte de dono do clube ou entidade responsável para tal), a não conformidade com os regulamentos e exigências do Comité responsável, leva a que sejam aplicadas algumas medidas, consoante o histórico e a evolução económico-financeira do clube. A saber: 

  • a) advertência
  • b ) repreensão
  • c ) multa
  • d ) dedução de pontos
  • e) retenção das receitas de uma competição da UEFA
  • f) proibição de inscrição de novos jogadores nas competições da UEFA
  • g ) restrição ao número de jogadores que um clube pode inscrever para a participação em competições da UEFA, incluindo um limite financeiro sobre o custo total das despesas com salários dos jogadores inscritos na lista principal (A) para a participação nas competições europeias
  • h ) desqualificação das competições a decorrer e/ou exclusão de futuras competições
  • i) retirada de um título ou prémio

Ainda que de forma ténue, o que é certo é que, desde 2011, 6 clubes já provaram o amargo sabor da sanção. 5 deles por terem dívidas para com jogadores ou outros clubes. 1 deles acabou mesmo impedido de participar nas competições europeias por não cumprir os requisitos do "Break-Even" -O Málaga.

Não retirando mérito ao quadro punitivo, o Comité tem-se debatido pela moderação e acompanhamento,  procurando conciliar amigavelmente o "espírito" do quadro legal com a realidade do futebol. Do exposto, nascem controlos regulares e directrizes focadas na pretendida saúde financeira. A paz do futebol e a verdade desportiva são asseguradas pelo controlo cuidado, personalizado e contínuo.

Então, se o controlo permite desvios e não é automático e imediatamente punitivo, como haverá protecção aos clubes mais pobres?

É simples a explicação teórica (utópica seria algo desencorajador). A sua compreensão prática é a de que poderá ser, deveras, difícil. Difícil porque, como sabemos, o dinheiro compra tudo. Ainda assim, a ideia romântica é esta: A medida percebe que clubes, à imagem de países, são desiguais na sua organização, tamanho, importância, grandiosidade e contas. Para uns é fácil arranjar patrocinadores, receitas, apoios, estabilidade e financiamento. Para outros, a tarefa é hercúlea. E é neste campo que a UEFA se concentra na formação, no amanhã, privilegiando a sustentabilidade do médio-longo prazo ao invés do crescimento por atalhos, da moderna ascensão meteórica. O futuro começa no presente e a UEFA pretende dar a conhecer tal realidade aos clubes que teimam não ver o amanhã. Mas, atenção: Os ricos, na ambição desmedida e sob o efeito de grandeza, correm risco de desmoronamento!

Manchester City e Paris Saint Germain, dois "novos ricos" do futebol actual, enfrentaram medidas sancionatórias por infracção ao fair play financeiro. Em causa, o desrespeito pelo "break-even". Estima-se que "multas" de 60 milhões de Euros possam ter sido pagas pelos dois colossos. Recentemente, foram levantadas tais medidas, permanecendo a vigilância. Hoje, sabe-se que, pela primeira vez desde que o City foi comprado, o clube apresentou resultados positivos. Uma vitória. Por cá, o Sporting Clube de Portugal tem vindo a ser seguido pelo Comité, por forma a cumprir os parâmetros exigidos, manter-se empenhado na recuperação financeira e participativo nas provas continentais. O tratamento rigoroso e intensivo tem estado a sortir efeito.

É importante que grandes e pequenos percebam a perigosidade do endividamento. O passivo não é um mero número, é uma forma de aprisionar e aniquilar um clubeO futuro começa a ser escrito agora, dentro de margens e em cima de linhas.  No futebol não pode valer tudo, levando à extinção da magia que ele contém e que o torna o desporto rei. Descredibilizá-lo é tirar-lhe vida.


Conclusão:O Pensamento da UEFA e o futuro: 

Uma particularidade interessante e dinamizadora é o facto de despesas com estádio, formação e futebol feminino não poderem ser vistas como contribuições para o aumento do passivo e serão excluídas, portanto, das contas do clube, aquando da análise por parte do Comité. Aqui reside a chave da ideia, a finalidade das medidas: Incentivar um crescimento sustentado e gradual, numa procura por um futuro risonho!

Se a UEFA mudará o jogo? Não, não mudará, infelizmente. O mundo em que vivemos é tirano e egoísta o suficiente para ignorar quaisquer valores.Fundos, empresários, Banca, negócios e esquemas cada vez mais duvidosos tomam conta do rumo de clubes e jogadores. De ano para ano surgemnovos milionários proprietários de clubes, agentes com ligações directas a clubes e representantes da maioria dos seus activos e das suas contratações. Novos clubes surgem em diversos campeonatos de outros Continentes, numa tentativa de contornarem as leis criadas - veja-se o caso de Lampard, e Villa, com as ligações próximas e duvidosas entre Manchester City e New York City: uma maneira inteligente de o clube inglês contornar o rigor destas medidas no que respeita às contratações. A MLS e o Campeonato Chinês, passando pelo Qatar, começam a causar instabilidade nos clubes europeus. Estes queixam-se das exigências excessivas da UEFA, que retiram capacidade negocial ao clube europeu. Essas insatisfações têm causado mau estar e a UEFA vê-se obrigada a abrandar nas medidas. A pressão é imensa e a medida não agrada aos mais fortes.


A própria Justiça já se pronunciou, intrigada quanto à ideia restritiva da UEFA e a sua regulamentação. A justiça belga remeteu para o Tribunal Europeu a matéria respeitante ao valor do défice exigido, levantando dúvidas quanto à não violação dos princípios da livre circulação de capitais, livre concorrência e livre prestação de serviços. Recorde-se que o processo foi desencadeado por um empresário de um atleta, o qual alegava que tais regras levariam a uma redução de transferências, do seu valor e, consequentemente, das remunerações. A UEFA acredita e confia na legalidade das suas medidas e na conformidade com os Tratados Europeus. A UEFA resiste, mas vai cedendo gradualmente. Estas batalhas contra Golias cansam.

Perante as dificuldades acima expostas, a UEFA sabe que não mudará o jogo, mas tenta mudar a maneira como o vemos, alertando para os riscos de um passo em falso e mostrando que uma bomba relógio acabará sempre por explodir, não passando tudo de uma questão de tempo. O futuro está nos jovens e o futuro terá de contar com clubes que fazem parte da história do futebol, dos livros, dos países e das pessoas. O futuro é também a meta dos audazes e honestos, dos pequenos que não se abnegam e apostam no que têm porque acreditam na essência do desporto e dos homens. Porque valores, homens e história são tudo o que têm. O futebol tem de ser diversificado e honesto. Limpo. O fair play terá de ser a essência do desporto. E quando se trata de fair play, a UEFA tem de dar o exemplo.


Tiago Carvalho.

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